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A pele em mim

Ser negro no Luxemburgo

Firmino, Lolo, Natalie, Rubio e Sandrine são cinco pessoas de origem africana que fizeram do Luxemburgo a sua casa. As suas histórias revelam-nos como a cor da pele pode condicionar a sua vida, num dos países da Europa onde mais pessoas se sentem vítimas de racismo, segundo um estudo de 2018.

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“Trabalhar como um preto”, quando trabalhamos demasiado. “Receber o ordenado a negro”, quando recebemos dinheiro sem descontar. “Falar em ‘petit-nègre’ (‘pequeno negro’)”, quando não falamos corretamente. “Um futuro negro”, quando más coisas se avizinham.

As palavras “negro” e “preto” são usadas todos os dias com uma enorme carga negativa. E, quando se fala de pele, a cor ainda faz a diferença.

Em novembro de 2018, foi publicado o estudo "Being Black in the UE" ("Ser negro na União Europeia"), pela Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), sobre a discriminação racial e a exclusão social de pessoas de origem africana.

Num total de 12 países, o Luxemburgo ficou em segundo lugar no pódio, mas pelos piores motivos. Mais de metade das pessoas negras inquiridas sentem-se vítimas de racismo (52%) e afirmam ser tratadas de forma diferente, seja na procura de casa, na escola ou no trabalho.

Para Lolo Arziki e Rubio Engenheiro, esta realidade não surpreende. Com um mestrado em cinema e estética, Lolo foi entregar o currículo numa empresa de audiovisual. Não chegou à entrevista. A rececionista, que mal olhou para o seu currículo, disse-lhe para ir procurar trabalho nas limpezas. “É mais fácil”, foi essa a justificação, conta Lolo. “Mulher negra e imigrante tem de trabalhar nas limpezas”.

Já Rubio diz ter enviado vários currículos quando aqui chegou, em 2015, sempre sem resposta. Uma vez, foi entregar um pessoalmente. Começou a falar em francês mas, a meio da conversa, a pessoa com quem falava mudou o discurso para luxemburguês, língua que Rubio não entendia. Desistiu e encontrou trabalho nas obras, como grande parte dos imigrantes.

Há casos de sucesso, como Natalie Silva e Sandrine Gashonga: uma foi eleita em 2017 burgomestre de Larochette; outra chegou ao país como refugiada e tornou-se formadora multicultural, estando desde 2017 ligada ao partido do déi Lénk (A Esquerda).

Natalie diz que “a diferença está apenas na cor” e acredita que, se provar que é tão boa como os outros, consegue chegar ao mesmo patamar. Mas é precisamente essa “prova de esforço” que Sandrine critica: “Temos de lutar mais do que os outros. Porque todos os nossos esforços são invisíveis”.

Para quem chegou nos anos 1960, o país era outro, mas a realidade a mesma. “Havia racismo”, conta Firmino Inocêncio, que antes de chegar ao Luxemburgo passou pela Holanda e por Portugal, onde conheceu a mulher. Mas o cabo-verdiano não se deixava afetar pelos comentários negativos. “Era falta de conhecimento de outro mundo que não o Luxemburgo”, conta Firmino, que muitas vezes tinha de explicar que em Portugal também havia pessoas negras. De trabalhador das obras, Firmino acabou por se tornar presidente da associação Amizade Cabo-verdiana e um dos rostos mais conhecidos da sua comunidade.

Dois cabo-verdianos, um guineense, uma ruandesa e uma luxemburguesa filha de cabo-verdianos: foram estas as cinco pessoas que acompanhámos durante meses, para perceber os caminhos da discriminação racial. E de que forma elas abriram as portas que lhes foram fechadas.